O Brasil é um país original. Tem duas moedas. A do respeitável público, que vale algo como zero vírgula qualquer coisa por cento ao mês e a dos banqueiros, que custa pelo menos dez vezes mais. Quando você deve ao governo entra numa coisa chamada "dívida ativa". Quando é o governo quem deve, a dívida nunca deixará de ser passiva. Por aqui, se correr o banco pega, se ficar o juro come.
Eugenia Melo e Castro
sábado, 21 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Haikais
Haikai ou Haiku é uma forma poética de origem japonesa que valoriza a concisão a objetividade. O principal haicaista foi Matsuô Batshô que viveu de 1644 a 1694 e se dedicou a fazer desse tipo de poesia uma prática espiritual.
De Idelma Ribeiro de Faria:
Para o albatroz
a Terra é apenas um pouso.
Sua morada é o céu.
*
Fez flores e frutos
e o mar e as núvens e as fontes
e criou Caim.
*
De Clarice Lispector:
Laranja na mesa.
Bendita a árvore
Que te pariu.
*
De Millôr Fernandes:
Na poça da rua.
O vira-lata
Lambe a lua.
De Idelma Ribeiro de Faria:
Para o albatroz
a Terra é apenas um pouso.
Sua morada é o céu.
*
Fez flores e frutos
e o mar e as núvens e as fontes
e criou Caim.
*
De Clarice Lispector:
Laranja na mesa.
Bendita a árvore
Que te pariu.
*
De Millôr Fernandes:
Na poça da rua.
O vira-lata
Lambe a lua.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
A mancha na parede
Na semilua
entre ruídos eletrônicos
e gemidos de dor
a espera é a única
companheira
Na rua temida
cravam punhais
trocam tiros
na caça de parca
ou improvável
recompensa
Uma vida é tirada
sem a contra partida
de perdão ou castigo
Centenas de corpos
nus
efileirados
admitem sua culpa
e revidam pelo respeito
Bandeiras hasteadas a esmo
representam sentidos
representam motivos
Nada além de revolta
sem facções ou ideologia
A mancha na parede
com o passar dos dias
deixará de ser percebida
Logo outra aparecerá
e será notada por algum tempo,
até se perder no cotidiano.
Solano Ribeiro
entre ruídos eletrônicos
e gemidos de dor
a espera é a única
companheira
Na rua temida
cravam punhais
trocam tiros
na caça de parca
ou improvável
recompensa
Uma vida é tirada
sem a contra partida
de perdão ou castigo
Centenas de corpos
nus
efileirados
admitem sua culpa
e revidam pelo respeito
Bandeiras hasteadas a esmo
representam sentidos
representam motivos
Nada além de revolta
sem facções ou ideologia
A mancha na parede
com o passar dos dias
deixará de ser percebida
Logo outra aparecerá
e será notada por algum tempo,
até se perder no cotidiano.
Solano Ribeiro
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Donde?
Por José Saramago
Donde saiu este homem? Não peço que me digam onde nasceu, quem foram os seus pais, que estudos fez, que projecto de vida desenhou para si e para a sua família. Tudo isso mais ou menos o sabemos, tenho aí a sua autobiografia, livro sério e sincero, além de inteligentemente escrito. Quando pergunto donde saiu Barack Obama estou a manifestar a minha perplexidade por este tempo que vivemos, cínico, desesperançado, sombrio, terrível em mil dos seus aspectos, ter gerado uma pessoa (é um homem, podia ser uma mulher) que levanta a voz para falar de valores, de responsabilidade pessoal e colectiva, de respeito pelo trabalho, também pela memória daqueles que nos antecederam na vida. Estes conceitos que alguma vez foram o cimento da melhor convivência humana sofreram por muito tempo o desprezo dos poderosos, esses mesmos que, a partir de hoje (tenham-no por certo), vão vestir à pressa o novo figurino e clamar em todos os tons: “Eu também, eu também.” Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vinhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Spread
O Brasil tem duas moedas. Uma a nossa, que vale algo perto de zero vírgula qualquer coisa por cento ao mês. A outra, é a dos bancos, que dependendo das circunstâncias, custa até quinze vezes mais, ou mais. A desculpa alegada pela diferença, ou o “spread” é o risco da inadimplência. Mas, os lucros que acusam é um escárnio para quem aqui em baixo, ralando, tenta produzir. Aqui, banco não banca, agiota. E ainda ficam discorrendo a propósito da péssima distribuição de renda vigente no país. Como se a culpa não fosse deles, que além cacifados pelos juros escorchantes e tarifas imorais tomaram as devidas providências para proteger seu rico dinheirinho criando o mais invasivo, agressivo e desrespeitoso sistema de cobrança que se tem notícia no mundo. Invadem a privacidade do cidadão, pelo telefone, qualquer dia e hora. Além de distribuir a intimidade do devedor aos colegas por meio dos serviços de proteção ao crédito, transformando qualquer transação mercantil numa atividade tão arriscada como gastar além do limite do cheque especial, ou comprar a prazo com o cartão de crédito. Enquanto a violência e impostos aumentam, aqueles caras de Brasília fazem de conta que não é com eles. O que serve de desculpa para que continuem a não fazer nada. A não ser cuidar muito bem da própria distribuição da renda. A do cidadão, cuja única via é através de salários mais dignos e empregos criados com o dinheiro dos bancos, se canalizado para a produção, deixa para lá. O problema social passa a ser o bode expiatório. Não é com eles. Culpa da história. Como se não estivessem ganhando para escrevê-la. Se você deve para o governo passa a ter seu nome na divida ativa. Quando o governo é devedor a divida silenciosamente passa a ser inativa. Pagar precatórios, nem pensar. Os Estados Unidos, assolados pela crise e para estimular o consumo, na tentativa de que o país keep walking, baixaram os juros para 0,25 ao ano. Vale repetir, ao ano. Enquanto aqui, os viadutos continuam a ser a única opção imobiliária para a turma do social. Mas, nem tudo esta perdido. Sem levar em conta que viadutos podem cair, a cachaça foi tombada. Agora é patrimônio nacional. Mesmo com as águas a rolar, a cachaça é nossa! Fico pensando na preocupação que isso deve causar aos escoceses. Feliz 2009...Cruzes!
Solano Ribeiro
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
Lei Seca!
Felipe e Marina formavam um casal feliz. Jovens, belos, cheios de alegria, com vida emocional e financeira tranqüila. Sem filhos, viviam para viver. Eram sempre os primeiros em qualquer lista de convidados de convites jamais recusados. Primeiros a chegar e últimos a sair. Para os amigos, festa sem os dois, embora fosse raro, parecia ter alguma coisa fora do lugar. Além do ciúme, pois deveriam estar se divertindo e a divertir outros privilegiados. Às vezes, depois de algum compromisso impossível de recusar, apareciam no final de reunião da turma e tudo mudava. Chegavam já "calibrados" e, sempre engraçados, traziam histórias hilárias das pessoas com quem tinham acabado de estar, o que incrementava os papos e dava novo colorido à reunião, festa ou mesmo uma saideira no "Oposto", barzinho no Posto de gasolina da Granja Vianna, onde quase toda noite sempre havia alguém a jogar conversa fora. O casal, apesar de bastante etilizado, nos fins de noite chegava de automóvel, cuja direção revezavam dependendo de quem estivesse em melhor estado. Jamais um acidente ou mesmo incidente em anos de estrada. Até a chegada da Lei Seca. Prolongadas discussões sobre o absurdo das novas medidas. "Autoritarismo!". "Inconstitucional!". "Invasão de privacidade!!!". "Qualidade de vida prejudicada!!!". "E os direitos humanos???". Certa noite, Primo, um dos da turma foi preso. Imbuído da certeza de que estaria acima de qualquer punição soprou o bafômetro com o mesmo ímpeto com que gritou pelo gol do Palmeiras. Naquela noite, um a zero no Corinthians. Delegacia. Instituto Médico Legal. Fiança. Liberdade. Direto para um último gole no Oposto. Assunto para muitas noites. Aos poucos e com o proliferar de notícias de que amigos de vários amigos haviam "caído", o consumo também foi caindo. Com isso o faturamento. Luiz o proprietário, estava desolado. Felipe e Marina foram os últimos a capitular. Mas, "dura lex sed lex!". Decisão: Revezar. Num dia, um bebe e não dirige. No outro, quem dirigir não bebe. Par ou impar. Amanhã, Felipe não bebe. "Então vamos comemorar". Foi o maior porre dentre todos que tinham lembrança. Mas sempre, como sempre, na cama o final feliz. Já na primeira festa a primeira briga. "Que festa chata!. Um saco! Você tinha que ficar dando bola pro Marcelo". "Que bola?". "Ficaram dançando o tempo todo de rosto colado". "Como sempre! Você não dançou porque não quis. A Valéria estava lá". "Não tava a fim". Naquela noite, na cama nada. Na festa seguinte, o contrário. "Nunca pensei que você fosse tão cara de pau. Passando o pé no pé da Janete por baixo da mesa, bem na frente do corno do Ricardo". "Na frente não, embaixo". "Cê ta bêbado". Na cama: "Com esse bafo não dá". A bebida não fazia parte dos hábitos de outro casal jovem e sem filhos: Carlos e Renata. Ele, por proibição médica e ela por solidariedade ao marido. Sempre em sintonia com o clima acelerado da turma, jamais destoavam. Mas suas relações não andavam bem. Incompatibilidade de horários. Renata, produtora de Rádio e TV numa agência de propaganda, passava noites em intermináveis filmagens. Felipe e Marina, estremecidos e já separados mantinham as mesmas agendas. Inevitável o casal Carlos x Marina. Como recíproca, Felipe passou a conhecer as delicias das noites publicitárias de Renata. Nem o hálito etílico de um ou as gracinhas do outro com as belas modelos pareciam ser notados. Com apartamentos já montados, fácil para ambas as partes. Foi só fazer mudança das roupas e objetos íntimos dos ex-maridos e algumas garrafas. E o bafômetro deixou de ter importância.
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