Eugenia Melo e Castro

terça-feira, 7 de julho de 2009

Motoqueiros...A solução é simples

De como a tolerância a uma infração, aliada a interesses comerciais, se transformou em problema social.

Quando da aprovação pelo então Presidente FHC do atual Código Brasileiro de Trânsito, o artigo 56 do texto original proibia a passagem de motos entre os veículos em circulação.Como no mundo inteiro. A indústria da moto e seus revendedores, que não poderiam ficar à mercê de um simples artigo a atrapalhar o seu negócio de bilhões, através de lobies e com provável “pedágio” conseguiu cortar do texto final a obrigatoriedade da moto ocupar seu antigo espaço. Passou a ser permitido que trafegasse pelo corredor entre os carros. Foi o sinal verde para que o inferno se instalasse nas ruas das grandes cidades brasileiras. A partir de então, a frota cresceu de tal maneira que verdadeiro enxame de motoqueiros tomou conta das ruas sendo a maior responsável pela deterioração da qualidade do ar, pois poluem 32 vezes mais que os carros emitindo 13,8% do monóxido de carbono. Além da poluição sonora causada pelas irritantes buzinas.
As estatísticas estão aí: morre pelo menos um motoqueiro a cada dia só na cidade de São Paulo, onde não são computados os que morrem nos hospitais, nem pedestres atropelados por motocicletas. Sem contar as centenas de casos que passam despercebidos, sendo notados apenas por aqueles que testemunham de perto a atividade do resgate a atrapalhar o seu caminho ou, pelo rádio, nas informações sobre o trânsito da cidade. São números inadmissíveis para um país civilizado. É nas ruas, no trânsito, que o cidadão mantém o seu contato mais íntimo com a organização da sua comunidade, com a eficiência do seu governo. Quantas vezes não ouvimos amigos citarem, cheios de admiração e como exemplo de ordem e progresso o rigor das leis de trânsito nos países por onde passaram. Mesmo tendo sido eles próprios admoestados ou até punidos, por alguma infração corriqueira cometida.
O Código de Trânsito, no primeiro momento obteve o apoio da maioria da população, mas com o tempo foi desmoralizado pela falta da capacidade de administra-lo, ou como tudo neste país, foi deixado de ser levado a sério. Da mesma maneira que para disciplinar o uso dos espaços na propaganda ao ar livre com “tolerância zero” é preciso acabar com a guerra que se instalou nas grandes cidades simplesmente com a revisão do Código Brasileiro de Trânsito fazendo voltar o artigo 56 que iria colocar motos e motoqueiros nos seus devidos lugares. E salvar vidas.

Qualquer dia algum vereador vai propor que se crie, (se é que já não existe), o Dia do Motoboy. Provavelmente aproveitará a ocasião para anunciar, em homenagem aos que morreram no trânsito, a abertura de licitação para a construção do monumento ao Motoqueiro Desconhecido.
(Dê sua opinião)

Solano Ribeiro



Cozette

Estrela do Palladium,
era a gostosa da foto.
Qualquer coisa,
uma coisinha
uma Cozette qualquer...
A luz do primeiro ato.

Na linha de frente das pernas,
sublimes coxas, vibrantes,
balançavam o coração de tantos...
e quantos...
da primeira a última fila
pagavam o show barato.

Nada mais acontecia
quando Cozette dançava.
A Cozette que sorria
Cozette, a que brilhava.
E a galera ululava
enquanto Cozette dançava...

No bastidor zoneado,
sozinho, apaixonado,
o garçom curtia o prêmio
que toda noite esperava:
Numa fresta do camarim
a visão do entreato,
com cheiro de pó de arroz
e a bundinha empinada
Cozette ensaiava no espelho
o sorriso retocado.

...e voltava ainda suada
buscando a luz que rasgava
a nuvem de fumo num facho.
E enquanto o maestro enfezado
regia cadeiras arrastadas,
o bêbado gritava:
- Dança Cozette gostosa
você vale uma briga em casa.

Entravam todas juntas
todas iguais, enganadas,
pois ninguém mais aparecia
quando Cozette dançava.
Só Cozette, a que sorria
Cozette que a todos amava.

E a galera ululava,
enquanto Cozette dançava...

domingo, 5 de julho de 2009

O colecionador de calcinhas

Perturbado pelo cheiro forte da tinta Juca deixou para o dia seguinte o pára-lamas que faltava para terminar a pintura do velho carro vermelho. Como fazia todo fim de tarde num salto se pendurou na porta da oficina que desceu com seu peso. Depois de trancá-la seguiu para casa. Meia hora de caminhada pelas ruas empoeiradas da pequena cidade. Às vezes achava mais divertido seguir pelos terrenos baldios ao redor das mansões, onde vez por outra, parava para observar furtivamente o que acontecia na intimidade da gente rica da cidade. Se um cão mais atento ameaçava denunciar sua presença, num gesto rápido, fingia apanhar uma pedra no chão e atirar na direção do animal, que quase sempre, saia ganindo em disparada. A tinta ainda fazia seu efeito, mas agora, a sensação era agradável. Lembrava o tempo de garoto quando cheirava cola com os moleques da rua. Caminhou na direção à Casa Amarela. Casa térrea com grande varanda na frente. Lá, morava a garota linda que não conseguia esquecer. Loura, queimada de Sol, riso debochado, cujos dezessete anos freqüentava suas fantasias solitárias. Mas tinha estranho respeito por ela. Talvez pela autoridade que sua mãe transmitia. Quando cruzava com ela pelas ruas, que nem sequer notava sua existência, Juca sentia um frio na barriga que não conseguia explicar.
Naquela tarde, por detrás da Casa Amarela, gigantesca bola vermelha no horizonte trouxe, num relance, a lembrança das tintas com seu cheiro perturbador. Ao passar pela casa ouviu a voz retumbante da poderosa mulher:
- Aninha, me traga a toalha que ficou em cima da minha cama!
Juca sentiu um “negócio esquisito". Entrou pelo terreno ao lado procurando não ser notado. Um tremor tomou conta do seu corpo e a excitação quase o fez perder o controle. Pela janela de um dos quartos com a luz apagada, pode ver a porta do banheiro entreaberta, por onde através de nuvem de vapor, grande espelho iluminado refletia o perfil embaçado de mulher nua. Juca mal conseguia respirar. A luz do quarto foi acesa. Um corpo monumental entrou enxugando os cabelos. Foi um momento de êxtase. A bela mulher estendeu uma toalha vermelha sobre a janela e retornou ao banheiro. Pouco depois voltou ainda nua e sobre a toalha colocou uma calcinha de seda preta. Parou diante do espelho da penteadeira, onde passou algum tempo a ajeitar os cabelos molhados e tornou a desaparecer no vapor. O rapaz ficou atordoado. Queria que o tempo houvesse parado. Tentava relembrar tudo o que havia visto e ainda tremia muito quando sentiu a cueca empapada. Movido por estranho comando, pulou a cerca viva que o separava da janela, pegou a calcinha molhada que num relance guardou debaixo da camiseta. Vencendo novamente a cerca correu sem parar com o coração quase explodindo. Já na rua, sentindo segurança tirou a calcinha de junto ao peito, colocou-a sobre o rosto e curtindo o cheiro de gente rica que o sabonete havia deixado desandou a gargalhar de felicidade. Tinha vontade de voltar. Queria ver de novo o corpo nu daquela mulher maravilhosa. Ter certeza de que não havia sido um sonho. Deitou em sua cama no cubículo onde morava só e levantando o troféu de seda preta sentiu pela primeira vez uma sensação de verdadeira conquista. Aquela calcinha lhe pertencia.
Na manhã seguinte acordou bem cedo. Precisava terminar a pintura do carro vermelho. Evitou passar pela casa Amarela. A casa da Aninha, de quem agora sabia o nome. Parecia ter cometido uma traição. Justo a calcinha da sua mãe! Um certo remorso ficou a perturbá-lo naquela manhã. Ao longo do dia o cheiro das tintas provocando alguma confusão em sua mente trazia a lembrança da aventura do dia anterior. Um misto de sonho e desejo. Mais uma vez aquela sensação esquisita que fazia com que perdesse totalmente o senso. Sua excitação foi tanta que por duas vezes se refugiou no banheiro da oficina. Numa delas gemeu tão alto quando gozava que o patrão do lado de fora perguntou se estava passando bem:
- Não é nada não. É a barriga que anda meio atrapalhada.
No fim da tarde o céu foi encoberto por nuvens de chuva que acabaram por desabar sobre a cidade. A expectativa de voltar à Casa Amarela ia água abaixo. Literalmente. Melhor ir de ônibus. Lotado. Depois de passar a duras penas pela catraca do cobrador conseguiu um ponto de equilíbrio ao lado de duas noviças, acompanhantes de uma freira, que sentada, se concentrava num pequeno livro. Uma das noviças, morena de cara bonita, ao vê-lo abriu grande sorriso. Tão insinuante que deixou Juca desconcertado. Com o chacoalhar do ônibus ela foi chegando. Se encaixou de bunda e o espremeu contra o ferro de um dos bancos com tal força que chegou a machucar suas costas. A primeira reação, apesar da dor, foi se desculpar, tentar sair daquela prensa. Mas, a moça se esfregando cada vez mais acintosamente não o deixava sair. No princípio ficou com medo do que os outros passageiros iriam pensar. Era ele a encoxar a noviça. Foi quando o tal "negócio esquisito" tomou conta de sua cabeça. Com cuidado para que ninguém notasse, levantou o hábito da garota, meteu a mão entre as suas pernas e foi subindo até ter sua bunda na palma da mão. Sentiu a calcinha da agora assustada e excitada noviça e com um puxão arrancou a peça que um relance, entre o ruído de tecido rasgado e o estalo do elástico se rompendo, foi parar no seu bolso. A noviça se afastou procurando dissimular a surpresa com um sorriso indecifrável. Algumas paradas depois elas desceram. Entre risos e gritinhos nervosos das meninas as três se perderam no aguaceiro. Aproximou a calcinha do rosto como se fosse um lenço e curtiu o cheiro íntimo da morena.
Sábado, dia sem atrativos. A noite pior ainda para quem não tem amigos. Costumava se perder na multidão que ocupava a praça da Matriz. De vez em quando dava umas voltas pela zona. Só para paquerar. Até chegava a se divertir fingindo negociar com as putas. Mas não tinha coragem de transar. Morria de medo de pegar alguma doença, tanto a mãe o alertara dos perigos da vida liberada. Órfão de pai, pressionado pela super proteção da mãe, sempre viveu isolado. A solidão na verdade não o incomodava. Era feliz com a liberdade em que vivia. Quando às vezes alguma garota o impressionava sentia certa melancolia. Mas sua timidez era barreira que não conseguiria romper. Quase sempre nas noites de sábado, depois de algumas voltas pela cidade ia cedo para o barraco conviver com seus fetiches.
Aquele dia não parecia ser diferente. Acordou tarde e saiu sem destino. Grande armação num terreno próximo ao centro chamou sua atenção. Imenso palco era erguido. Anunciavam para aquela noite a apresentação de famosa dupla caipira. Como qualquer coisa que quebra a rotina de cidade pequena, curiosidade geral. Uma quase multidão acompanhava o trabalho da montagem. Grandes caixas de som testadas faziam prever o alvoroço que aconteceria no pedaço. Câmeras em altas torres eram ligadas a imenso carro com cores e logotipo de importante rede de televisão. Atrativo irresistível. Juca não conseguiu sair do local. Queria ficar bem perto dos artistas. O show, marcado para as oito da noite, mas assim que foi escurecendo uma quantidade de gente como ele nunca poderia ter imaginado se espremia junto ao palco. Pouco antes das oito o aperto era sufocante, quase insuportável. Se quisesse sair não conseguiria mais. O empurra-empurra transformou aquela gente em maré humana que se agitava em ondas sem nexo, povoada de risos, gritinhos de deboche e histeria. Uma fumaça branca como neblina com cheiro de glicerina tomou conta do palco. Luzes. De um brilho nunca visto. A gritaria foi crescendo até que o som explodiu abafando o ruído da platéia maravilhada. Empurrado de um lado para outro Juca se deixava levar. Era impossível contrariar o movimento daquela massa humana. Na verdade achava até divertido. De vez em quando uma bunda mais volumosa passava. Era mão de todo lado. Aquele mar de gente ia se agitando e cantando ao ritmo das violas elétricas e dos refrões: "E se de dia a gente briga, de noite a gente se ama. É que as nossas diferenças acabam no quarto em cima da cama..." Foi quando um rosto conhecido apareceu por um instante no meio daquela zorra. Aninha. Aos empurrões Juca foi chegando mais perto. Ela e uma amiga curtiam o espetáculo. Com muita dificuldade Juca se aproximou. No palco, a música rolava: "Como é bonito ver deitado, ao nosso lado, o seu lingerie jogado sobre a minha calça jeans..." Depois de muito esforço conseguiu ficar bem atrás de Aninha que vestia uma mini-saia justa e provocante. Seus longos cabelos louros agitados ao ritmo das violas, vez por outra acariciavam o rosto do rapaz envolvendo-o com seu perfume. Jamais tinham estado tão perto. Chegaram a ficar com os corpos colados. Foi quando aquele “negócio esquisito” bateu de novo. Com o coração aos pulos, enfiou a mão debaixo da saia da loirinha que parecia não dar bola. Juca prosseguiu lentamente a apalpar as coxas da garota, agora excitado com a certeza que ela curtia. Até que parou de repente, como que atingido por um raio gelado nas entranhas. Naquele aperto e com certa facilidade a garota girou seu corpo ficando cara a cara com Juca absolutamente estático. Aninha encarou profundamente a alma do espantado rapaz como que sabendo estar ali quem levou a calcinha da sua mãe. Com gestos sensuais, numa dança provocante, Aninha se esfregou por alguns instantes no corpo petrificado de Juca. Em seguida, com uma gargalhada ruidosa e debochada puxou a amiga pelo braço e antes de se perder na multidão deixou um último olhar de desafio na direção do ainda aparvalhado e assustado rapaz, que acabava de constatar que Aninha...não usava calcinhas.
*
Solano Ribeiro
2009

domingo, 28 de junho de 2009

Off do Off Flip

Noite de estréia

No final de tarde muito fria, diante da bilheteria do teatro, longa fila confirmava a expectativa pela primeira montagem da nova companhia de comédia promovida por eficiente campanha publicitária. Para a noite de estréia os ingressos não seriam vendidos, mas trocados. Um quilo de alimento não perecível. Para cumprir o preço ajustado todos na fila traziam algum pacote, caixa ou lata. – Vai ser um arraso – pensava o gerente, já prevendo meses de casa lotada. O diretor, aos berros, corria irado pelos bastidores clamando pelos sapatos dos atores que ainda não haviam chegado. - Mas eles prometeram... Gritava. – Desde que pagos... Completou o produtor em tom baixo para não ser ouvido pelos atores descalços, que sentados no imenso palco vazio, iluminados pela fraca luz de serviço, recusavam fazer o último ensaio. O autor, na penumbra da platéia, roia unhas ressecadas temendo os críticos impiedosos que só esperavam o fechar do pano para desabar venenosas palavras sobre suas palavras cuja seqüência havia procurado tornar coerente, lúcida e fluente em frases elaboradas com todo o cuidado. Tinha esperança de obter alguma emoção, riso ou lágrima, desde que qualquer emoção fosse. No palco, o diretor atônito diante do elenco sem sapatos, na expectativa de alguma resposta perguntava aos berros para a escuridão da platéia vazia: - Os adereços...Onde estão? Cadê os figurinos? E o cenário? Como pretender aplausos se nada temos alem de atores sem sapatos? Num canto isolado da boca de cena, equilibrado no topo de longa escada prateada, obedecendo a instruções de gorda e convicta iluminadora que da cabine envidraçada gesticulava gritos inaudíveis, o eletricista posicionava com focos aleatórios refletores apagados. Esperava que coincidissem com as marcações ensaiadas. - Na hora sai, pensava, lembrando de antigas montagens improvisadas. A fila crescia e se agitava. As portas já deveriam ter sido abertas. O vento frio e cortante prenunciava chuva impiedosa que logo iria castigar os já irritados espectadores. As notícias dos bastidores não conseguiam tirar o otimismo do gerente embevecido pela fila que não parava de crescer. Já tinha planos para o dinheiro que não via a hora de contar. Não naquela noite, ele sabia. Mas, o conteúdo das latas, caixas e pacotes, já deveria valer alguma coisa. No mínimo para alimentar os atores. Num diálogo mudo, para não provocar a ira do elenco que recusava fazer parte da encenação sem sapatos, o ator principal repassava, com bela e pálida coadjuvante, longo texto a ser contracenado. Tímido, procurando não ser notado, o dramaturgo acompanhava o conflito que surgia naqueles murmúrios decorados. Cheio de tiques nervosos, com tufos dos cabelos negros da figurante, o maquiador colava bigode mal ajambrado no líder semicareca dos comparsas cooptados, enquanto o chefe dos sem sapatos agitava maltrapilha bandeira encarnada. A chuva bateu forte, desvairada. Desfeita a fila pela tormenta a platéia em delírio molhado aplaudia portas fechadas. Convocado sob ameaças e já rendido às evidências o diretor estava prestes a reconhecer seu fracasso. Obedecendo a estalo dos dedos do gerente, até então preparados para contar dinheiro, o porteiro magricela providenciou a abertura das portas. Em segundos, verdadeira avalanche humana ocupou todos os lugares. Logo, palmas ritmadas exigiam o primeiro ato do sucesso anunciado. O diretor aturdido questionou ao gerente a abertura do teatro. - Você ficou louco! E agora? - E agora, respondeu, vá explicar a eles o que vai acontecer. Decidido a enfrentar mais aquele desafio surgiu frente à cortina sem saber a desculpa que iria dar. Um canhão de luz o iluminou frente à platéia que, imaginando iniciada a função, irrompeu em aplausos delirantes. Surpreso, decidiu contar a verdade. Pediu que fossem abertas as cortinas e acesas as luzes para que todos vissem o cenário inacabado. Chamados um a um à cena aberta, atores e figurantes sem sapatos contavam com humildade suas histórias íntimas, tristezas e as frustrações pelas falhas agora reveladas. Falou o maquiador, o cenógrafo, o figurinista e também o maquinista. O contra-regra, a iluminadora e depois o eletricista fizeram depoimentos entremeados com fatos de suas intimidades, paixões e ansiedades. Por vezes tristes, outras, engraçadas. A platéia fascinada com tamanha originalidade seguia em silêncio o desfilar de histórias simples, mas comoventes de gente tão sincera. O tempo foi passando e quando todos já tinham feito seu relato, o autor, saindo do lugar onde se escondia, temeroso pela reação da platéia, descalçou os sapatos e subiu ao palco. Com calhamaço de papel na mão que significava o texto a ser encenado foi o último a fazer uso da palavra. Mostrou ao respeitável publico a pilha de papeis dos quais a muito não se separava. Quase num soluço conseguiu murmurar: - Aqui está a minha obra. Anos de trabalho, anos de vida, e para que? Para que vocês, longe de suas vidas, possam viver um pouco de vidas criadas por minha imaginação e pelas palavras tornadas vivas. Cuja paga maior são apenas alguns segundos do seu aplauso. Para que tenha valido a pena, para que eu sinta algum sentido na minha vida. E tudo deixa de ser possível por pequenos detalhes. Hoje, a falta de alguns pares de sapatos...E abaixou a cabeça. A platéia de pé rompeu em aplausos. Um a um, atores e pessoal dos bastidores foram deixando o palco diante daquela gente emocionada, que sem controlar as lágrimas, não parava de bater palmas. Foi quando ecoaram delirantes gritos que tornavam aquele momento memorável para qualquer profissional de teatro: - Bravo! Bravo! Bravo! E o autor saiu lentamente do palco enquanto a cortina era fechada. O elenco teve que voltar várias vezes para agradecer aos aplausos. A noite de estréia está em cartaz há onze meses, sempre com casa lotada.

Solano Ribeiro
2009


sexta-feira, 26 de junho de 2009

A Mancha na parede - (Para Vlado)

Ruídos eletrônicos,
gemidos e gritos
fazem da espera
a única companheira.

Uma vida é tirada
sem perdão ou castigo.

Exibem a foto
para mostrar o fato
sem revelar o ato
que resultou na foto.

A mancha da parede
com o passar dos dias
deixa de ser percebida.
Logo outra aparecerá
e será notada por algum tempo,
até se perder no cotidiano.

Se não mudar a história.



Solano Ribeiro

quarta-feira, 24 de junho de 2009

É tempo de Wimbledon

Tênis - Para principiantes

Tênis, jogo que por causa do Guga ficou na moda, é uma espécie de ping-pong tamanho família. Só não é jogado em cima de uma mesa e quem o pratica usa sapatos que levam o nome do jogo. Mas o princípio é o mesmo, bater com uma raquete bem maior e cheia de cordas de nylon numa bolinha fazendo-a passar por sobre uma rede para cair nos limites indicados por algumas poucas linhas do outro lado, sempre procurando fazer com que o adversário, que em geral fica em linhas iguais e diretamente opostas, não consiga fazer com a bolinha nas suas linhas o que você tenta fazer com ela nas entre linhas do lado dele.
O tênis é o tipo de jogo inglês por excelência. O jogador nunca tem contato direto com o adversário, apesar da certeza de que ele esta lá, do outro lado. (os adversários dos ingleses estão sempre lá, do outro lado). Os tenistas jogam contra a rede, as linhas, os juizes, e a bolinha que sempre vem arremessada pela raquete do tenista que está do lado oposto. Existe o juiz de cadeira, que fica sentado um pouco acima dos jogadores e os juizes de linhas, um bando de atentos semi-agachados, cuja missão é dar um grito lancinante quando a bolinha cai fora do que costumam chamar de quadra e que às vezes levam tímidas vaias de sempre educados espectadores. Tênis é sinônimo de cavalheirismo.
Um bando de garotos bem comportados, movidos a promessas de que, se não cometerem nenhuma gafe durante o jogo, no futuro poderão ser promovidos a juizes de linha para gritar à vontade quando a bola sair dos limites, ou mesmo se tornarem jogadores com chance de serem campeões, ficam a postos para apanhá-la e em seguida devolvê-la aos tenistas, homens ou mulheres de fino trato, que não podem passar pelo desconforto de sair catando bolinhas como quem sai atrás de pintinhos amarelos desgarrados.
Ninguém jamais viu dois tenistas brigando. Na verdade isso seria uma deselegância impensável. Ele pode gritar a esmo, xingar a si mesmo, reclamar de eventuais decisões dos juizes de cadeira ou de linha, quebrar a raquete ou até criticar o comportamento do público, mas jamais na história do tênis, algum jogador saiu às vias de fato com o seu adversário. A não ser através de sua assessoria. Questão de educação. A filosofia do jogo parece ser - “nem tudo está perdido” - ou seja, sempre será possível corrigir eventuais gafes. Também coisa de inglês.
Os tenistas ficam o jogo todo tentando fazer com que a bolinha passe para o outro lado da rede, (que deve ser caríssima, pois a maioria traz a marca Mercedes Benz), sem deixar que saiam do limite imposto pelas linhas que formam a quadra, que por questão de economia também são utilizadas para jogos de duplas, o que faz com que existam linhas que valem e outras que não, como as leis brasileiras. Mas os ingleses jamais as confundem.
A contagem, para os não iniciados, é um dos segredos mais bem guardados pelo império britânico. Outro é a graça que acham no jogo de Cricket. No tênis, o primeiro ponto vale quinze, o segundo também quinze, o terceiro dez, e o quarto ninguém jamais saberá. Mas esse quarto e último ponto é o que pode decidir o que eles chamam de game, que não é o jogo todo como pode parecer numa tradução literal, mas apenas uma fração de um set e o jogador que ganhar seis games será considerado o vencedor do set que tem seis games. “God shave the Queen”. As vezes no game acontece um empate nos quarenta pontos. Nesses casos, não basta chegar aquele número misterioso, pois será sempre necessária uma diferença de dois pontos que não tem nome específico. Quem conseguir um ponto a mais passa a ter uma “vantagem”. Se quem estiver sacando ganhar o ponto seguinte fazendo a diferença de dois pontos, terá feito um “game point” e será considerado o vencedor do tal game.
Mas se o outro ganhar depois de ter passado pela vantagem, terá conseguido um “break point” ou, quem sacou não levou. Teve o seu serviço quebrado.
Vai sair vencedor quem fechar o maior número de sets e ganhará cada set quem fizer com que o adversário perca mais games. Mas definitivamente o mais importante é quebrar o saque do oponente, ou seja, ganhar o game quando quem saca é o outro, pois é aí que está a graça do jogo. Sacou?
O jogador que saca tem uma certa vantagem, pois no primeiro saque, também chamado de serviço, ele pode arriscar uma tremenda raquetada e não vai ter nenhum prejuízo se errar. Ele tem a chance de um segundo serviço, só que desta vez tem que acertar sob pena de cometer uma dupla falta, facilmente identificada pelo berro do juiz de linha - FAULT - que quando acontece em dois saques seguidos significa a perda de precioso ponto no game. Se o cara que saca perde mais pontos, ou seja, se quem está na frente é o jogador que não está sacando, a contagem é feita ao contrário; zero - quinze, zero - trinta, quinze - trinta e assim por diante, até que consiga chegar àquele número que jamais alguém saberá e então terá quebrado o serviço do outro. Para o cara que quebrou o serviço ganhar o set, basta não perder mais nenhum game quando estiver sacando que estará feita a diferença de dois pontos, sempre necessária.
Se não acontecer quebra de serviço o jogo vai de game em game, até que um dos tenistas ganhe seis deles. Mas o outro também pode ganhar seis games fazendo seis a seis no set, e aí teremos o “Tie Break”, para os ingleses a quebra do empate. No tie break, ganha quem chegar primeiro ao sétimo ponto, o que geralmente é fácil da gente ficar sabendo, pois é chamado de set point. Bom, isso se o adversário não chegar um ponto atrás, pois para ganhar no tie break também é preciso a tal diferença de dois pontos, o que às vezes faz com que a quebra de empate, ou desempate, termine com vinte sete para o que ganhou e vinte cinco para o que perdeu.
Parece confuso? Parece e é. Mas não na Inglaterra, país em cuja moeda até pouco tempo a soma de doze mais doze dava vinte, onde a mão de direção no trânsito é ao contrário, assim como o próprio volante, que lá é na direita. Se na Inglaterra você dirigir seu carro na mão que seria correta para um brasileiro leva uma multa desse tamanho, e em inglês. Isso se antes não tiver dado uma puta porrada.
O jogo de tênis tem três ou cinco sets, dependendo da importância do torneio. Alguns têm três sets na fase eliminatória e cinco na partida final, no geral um jogo que vale uma grana preta, mesmo pra quem perde. Nos jogos que tem três sets será vencedor quem ganhar dois deles e nos jogos com cinco, ganha quem fechar com vantagem três dos sets. Fácil não?
As partidas entre mulheres são em três sets para que não cansem demais. Mas já existe uma ONG defendendo o direito da mulher também jogar cinco sets, desde que parem de gritar ou gemer ao dar suas raquetadas. As “vantagens” já citadas acontecem quando no game, set ou "Match point", um dos jogadores fica a um ponto de ganhar o tal game, set, ou match. Nos jogos com cinco sets, a vantagem é de quebra para quem assiste, pois poderá ir almoçar se quiser, tirar uma soneca ou até pegar um cinema porque quando voltar o jogo ainda vai estar rolando animado até que um dos jogadores consiga fazer o chamado “Match point”, o ponto do jogo. Nem sempre o ponto do jogo é o último a ser disputado, pois se quem estiver para fechar a partida perder o ponto do jogo vai ter que conseguir outro o que pode significar uma tremenda mão de obra até chegar de novo lá. Isso se o Match Point não for conseguido pelo adversário, o que acontece com freqüência. Ficou convencionado pelos ingleses, e o mundo inteiro aceitou, que ganhará o jogo quem ganhar o tal de “Match point”.
De vez em quando no meio de uma partida os tenistas fazem uma pausa e sentados um de cada lado do juiz, que sempre estará lá em cima, aproveitam para pensar na vida e no pão que estão ganhando. Mas nessa hora, todos sem exceção, costumam enxugar o suor do rosto. Os jogadores aproveitam também para tomar um gole de água mineral ou de energético com a marca de um dos vários patrocinadores do torneio. É aí que a televisão tem a oportunidade de faturar, colocando no ar os seus comerciais. Quase sempre quando termina o intervalo o jogo já recomeçou. Mas ainda assim não vai ser problema você saber o que está acontecendo, porque não terá acontecido nada muito diferente. Bom, às vezes você vai perceber que os jogadores trocaram de lado.

© Solano Ribeiro

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Vender Palavras

Estou a vender palavras.
Podem ser caras ou baratas.

Para o bom entendedor
hão de custar a metade.

Já palavras ao vento,
ficarão ao seu sabor.

Para o ricaço empolado,
vão custar dobrado,
pois certamente servirão,
pra render mais um bocado.

A de honra...
não tem preço!

Para a garota que passa,
apenas palavras de graça.
E pra’quele mulherão,
só os olhos falarão.

Para o velhote, coitado,
custarão nada,
pra não comprometer
sua renda aposentada.

Aos poderosos, maiores preços,
pois com palavras caras
surgirão novos endereços.

Ao quase poeta,
aquele boêmio solitário,
o reino da terra, do céu,
da verdade,
que saiba do dicionário,
tirar toda a felicidade

Bêbados que me perdoem,
e também criancinhas chatas,
mas não quero em boca mole,
palavras que não se escolhe.

Aos colegas poetas um pedido,
me emprestem sua matéria prima,
afinal, como eles,
só sei viver da rima.


Solano Ribeiro / 2009